19 de dezembro de 2011

Show do Chico Buarque - 16/12/2011 no Teatro Guaíra - Curitiba/PR


Com 20 minutos de atraso e uma platéia inquieta, Chico entra. “Velho Francisco” é a primeira canção, “vida veio e me levou”. Um tímido boa noite, quase inaudível, arranca aplausos eufóricos e calorosos do público. E o show segue. O repertório não poderia ser melhor. Os clássicos “Geni e o Zepelim”, “O meu amor”, “Tereza”, “Ana de Amsterdã” foram cantados como hinos pela platéia. A melancólica “Anos dourados” e “Injuriado” foram de encher os lhos de lágrimas. E o que dizer de “Bastidores”? “Cantei, cantei, nem sei como cantava assim”. O novo disco, “Chico”, fez parte do repertório. Todas as mbúsicas foram lindamente cantadas, acompanhadas de algumas vozes da platéia. “Sinhá” foi de matar: o flautista Marcelo e Jorge Helder batucaram, batucaram, batucaram até Chico se ausentar do palco. Dois bis! E, no primeiro, a minha grande e doce surpresa: “Futuros amantes”. Chico despede-se com “Na carreira” e sai, tímido e calado. Lindo, amável, amado e poeta.

13 de dezembro de 2011

O Natal nas palavras de...



Rubem Braga

Natal

É noite de Natal, e estou sozinho na casa de um amigo, que foi para a fazenda. Mais tarde talvez saia. Mas vou me deixando ficar sozinho, numa confortável melancolia, na casa quieta e cômoda. Dou alguns telefonemas, abraço à distância alguns amigos. Essas poucas vozes, de homem e de mulher, que respondem alegremente à minha, são quentes, e me fazem bem, "Feliz Natal, muitas felicidades!"; dizemos essas coisas simples com afetuoso calor; dizemos e creio que sentimos; e como sentimos, merecemos. Feliz Natal!

Desembrulho a garrafa que um amigo teve a lembrança de me mandar ontem; vou lá dentro, abro a geladeira, preparo um uísque, e venho me sentar no jardinzinho, perto das folhagens úmidas. Sinto-me bem, oferecendo-me este copo, na casa silenciosa, nessa noite de rua quieta. Este jardinzinho tem o encanto sábio e agreste da dona da casa que o formou. É um pequeno espaço folhudo e florido de cores, que parece respirar; tem a vida misteriosa das moitas perdidas, um gosto de roça, uma alegria meio caipira de verdes, vermelhos e amarelos.

Penso, sem saudade nem mágoa, no ano que passou. Há nele uma sombra dolorosa; evoco-a neste momento, sozinho, com uma espécie de religiosa emoção. Há também, no fundo da paisagem escura e desarrumada desse ano, uma clara mancha de sol. Bebo silenciosamente a essas imagens da morte e da vida; dentro de mim elas são irmãs. Penso em outras pessoas. Sinto uma grande ternura pelas pessoas; sou um homem sozinho, numa noite quieta, junto de folhagens úmidas, bebendo gravemente em honra de muitas pessoas.

De repente um carro começa a buzinar com força, junto ao meu portão. Talvez seja algum amigo que venha me desejar Feliz Natal ou convidar para ir a algum lugar. Hesito ainda um instante; ninguém pode pensar que eu esteja em casa a esta hora. Mas a buzina é insistente. Levanto-me com certo alvoroço, olho a rua e sorrio: é um caminhão de lixo. Está tão carregado, que nem se pode fechar; tão carregado como se trouxesse todo o lixo do ano que passou, todo o lixo da vida que se vai vivendo. Bonito presente de Natal!
 
O motorista buzina ainda algumas vezes, olhando uma janela do sobrado vizinho. Lembro-me de ter visto naquela janela uma jovem mulata de vermelho, sempre a cantarolar e espiar a rua. É certamente a ela quem procura o motorista retardatário; mas a janela permanece fechada e escura. Ele movimenta com violência seu grande carro negro e sujo; parte com ruído, estremecendo a rua.

Volto à minha paz, e ao meu uísque. Mas a frustração do lixeiro e a minha também quebraram o encanto solitário da noite de Natal. Fecho a casa e saio devagar; vou humildemente filar uma fatia de presunto e de alegria na casa de uma família amiga.

Texto extraído do livro "A Borboleta Amarela", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1963, pág. 124.

9 de dezembro de 2011

Dia da criação - Vinícius de Moraes

Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na Cruz para nos salvar.
Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.
Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.
Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.
II
Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado.
Há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado.
Há um homem rico que se mata
Porque hoje é sábado.
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado.
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado.
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado.
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado.
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado.
Há um grande espírito de porco
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado.
Há criancinhas que não comem
Porque hoje é sábado.
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado.
Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado.
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado.
Há um tensão inusitada
Porque hoje é sábado.
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado.
Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado.
Há um grande aumento no consumo
Porque hoje é sábado.
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado.
Há um garden-party na cadeia
Porque hoje é sábado.
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado.
Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado.
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado.
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado.
Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado.
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado.
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado.
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado.
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado.
Há a comemoração fantástica
Porque hoje é sábado.
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado.
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado.
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado.
III
Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens, ó Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário
Nem tu, mulher, ser vegetal dona do abismo, que queres como as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas em queda invisível na terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda e missa de sétimo dia,
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.
Lágrima: 1. Saudade na forma líquida; 2. Mistura de água do mar com alma moída 3. Secreção aquosa expelida através dos canais lacrimais quando se espreme o coração; 4. Felicidade que escorre pela face; 5. Estrela cadente que despenca do céu dos olhos de quem ama; 6. Motivo da existência de lenços brancos; 7. Nome comumente dado ao fim de um romance; 8. Momento que antecede o adeus; 9. Pedaço de ontem; 10. Antônimo de desprezo; 11. Grande inspiração dos poetas; 12. Na Europa, folha que cai da árvore quando chega o outono; 13. Na velhice, fome de colo; 14. Névoa úmida que cobre o mundo quando chove dentro da gente. (Ex.: “Não, isso não é lágrima, não. É que a felicidade virou mar dentro de mim e a maré acabou de subir”.) 
A. Gonçalves

Milton Hatoum, o arquiteto das palavras


A literatura é um refúgio. E, muitas vezes, uma válvula de escape para os escritores e leitores. Já sabemos disso. Porém, não é algo assim tão surreal e divino, não. Escrever é, antes de tudo, um trabalho braçal, cansativo e que requer prática e treinamento. Escrever é estar, antes de tudo, preparado para dar vida à novas vidas. O bom escritor não viaja em outros planos astrais, não toma chás de cogumelos para despertar alguma inspiração dentro de si, não é tocado por dedos mortos de falecidos poetas.. o bom escritor conhece a língua e trabalha com ela, é o arquiteto da língua. Constrói estruturas complexas, camada por camada. Escrever é o seu trabalho. Milton Hatoum, em conversa na Biblioteca Pública do Paraná, comprova, para que ninguém tenha dúvidas, porque é considerado um dos maiores escritores contemporâneos: sua obra é, tal qual uma construção, arquitetada sob o olhar atento e crítico de um homem lúcido, inteligente e sensato. Enquanto falava, imaginei como seria a “construção” de um romance.. e me perdi na planta.. Concluo, então, que escrever vai além de escrever. Ler não é ler. Não lemos o que está escrito. Lemos o que está escondido nos buraquinhos dos tijolos.. sabe? Como se a narrativa fosse um prédio sem cor, o qual, a cada leitura, fossêmos acrescentando cores, pintando as janelas, as paredes, o telhado, os rodapés. O escritor é um leitor. O leitor é um escritor. E só na literatura isso é possível.


Mais sobre Milton em: http://www.miltonhatoum.com.br/