25 de junho de 2012

Le fabuleux destin d'Amélie Poulain


O fabuloso destino de Amélie Poulain é aquele filme do tipo "de cabeceira". Assim como temos livros de cabeceira, temos filmes também. E esse é o meu.
Não sou cinéfila nem nada parecido.. vou ao cinema quando filmes adaptados de alguma obra literária estão em cartaz, ou algum filme de época que aparente contar uma grande história, ou então aqueles romances água com açúcar, necessários a qualquer mulherzinha que se preze, e, claro, os filmes que contam a história (ou parte dela) do Brasil ou alguma região.
O que me levou até Amélie? Não me lembro. Só sei que uma alma abençoada (também não lembro quem) me indicou. E de tão bem recomendado que foi, comprei o filme.
Assisti milhões de vezes e ele sempre me pareceu diferente.
A história de Amélie não teria nada de incrível, não fosse a simplicidade e a riqueza de detalhes que constroem sua trajetória. A delicadeza, as flores, as imagens de sonho, a doçura e a sensibilidade, unem-se à uma trilha sonora de fazer chover os olhos, e dão forma à Amélie e sua linda história.
Não, não vou contar a história. Gostaria de escrever parágrafos e mais parágrafos sobre esse filme, mas me faltam palavras. Só sei sentí-lo.
Mas posso dizer que é uma história lindíssima, doce e pura.
É daquelas histórias que embalam noites chuvosas, noites quentes de verão, noites geladas de inverno. É daquelas histórias para ver com os olhos e ouvidos bem atentos e o coração aberto. 

Abaixo, segue o link de um vídeo do música de Yann Tiersen, que compôs a magnífica trilha sonora do filme. A música abaixo se chama "A Quai".

http://www.youtube.com/watch?v=lS5vpMBkzlY&feature=related 


22 de junho de 2012

de.coração I

Além de literatura, a partir de hoje começo a postar sobre decoração barata, reciclada e alternativa.
No meu outro blog amortecidos, feito em parceria com meu excelentíssimo namorado, postamos nossas invenções nessa área. E é roubando um post de lá, que inicio a série de.coração.

O nome é de.coração, porque vejo o artesanato como uma forma de expressão também, afinal de contas, é arte. E toda arte, tem que passar pelo coração para se tornar realidade.

Aí vai uma das nossas invenções... inspirem-se e criem, é gostoso demais!

Fazendo arte: luminária

18 de junho de 2012

Uma das mais belas canções do Chico.. poesia pura.

O que será (À flor da pele) - Chico Buarque


O que será que me dá
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz suplicar
O que não tem medida, nem nunca terá
O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita

O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os unguentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite

O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os tremores me vêm agitar
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os suores me vêm encharcar
Que todos os meus nervos estão a rogar
Que todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz implorar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo
 

28 de maio de 2012

Uma vela para Dário - Dalton Trevisan

Posto hoje aquele que considero o melhor conto de todos, e do melhor contista de todos. Sem exageros. Leiam, vejam e ouçam a vida que pulsa em cada linha.




Uma vela para Dário

Dario vinha apressado, guarda-chuva no braço esquerdo e, assim que dobrou a esquina, diminuiu o passo até parar, encostando-se à parede de uma casa. Por ela escorregando, sentou-se na calçada, ainda úmida de chuva, e descansou na pedra o cachimbo.

Dois ou três passantes rodearam-no e indagaram se não se sentia bem. Dario abriu a boca, moveu os lábios, não se ouviu resposta. O senhor gordo, de branco, sugeriu que devia sofrer de ataque.

Ele reclinou-se mais um pouco, estendido agora na calçada, e o cachimbo tinha apagado. O rapaz de bigode pediu aos outros que se afastassem e o deixassem respirar. Abriu-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta. Quando lhe retiraram os sapatos, Dario roncou feio e bolhas de espuma surgiram no canto da boca.

Cada pessoa que chegava erguia-se na ponta dos pés, embora não o pudesse ver. Os moradores da rua conversavam de uma porta à outra, as crianças foram despertadas e de pijama acudiram à janela. O senhor gordo repetia que Dario sentara-se na calçada, soprando ainda a fumaça do cachimbo e encostando o guarda-chuva na parede. Mas não se via guarda-chuva ou cachimbo ao seu lado.

A velhinha de cabeça grisalha gritou que ele estava morrendo. Um grupo o arrastou para o táxi da esquina. Já no carro a metade do corpo, protestou o motorista: quem pagaria a corrida? Concordaram chamar a ambulância. Dario conduzido de volta e recostado à parede - não tinha os sapatos nem o alfinete de pérola na gravata.

Alguém informou da farmácia na outra rua. Não carregaram Dario além da esquina; a farmácia no fim do quarteirão e, além do mais, muito pesado. Foi largado na porta de uma peixaria. Enxame de moscas lhe cobriu o rosto, sem que fizesse um gesto para espantá-las.

Ocupado o café próximo pelas pessoas que vieram apreciar o incidente e, agora, comendo e bebendo, gozavam as delicias da noite. Dario ficou torto como o deixaram, no degrau da peixaria, sem o relógio de pulso.

Um terceiro sugeriu que lhe examinassem os papéis, retirados - com vários objetos - de seus bolsos e alinhados sobre a camisa branca. Ficaram sabendo do nome, idade; sinal de nascença. O endereço na carteira era de outra cidade.

Registrou-se correria de mais de duzentos curiosos que, a essa hora, ocupavam toda a rua e as calçadas: era a polícia. O carro negro investiu a multidão. Várias pessoas tropeçaram no corpo de Dario, que foi pisoteado dezessete vezes.

O guarda aproximou-se do cadáver e não pôde identificá-lo — os bolsos vazios. Restava a aliança de ouro na mão esquerda, que ele próprio quando vivo - só podia destacar umedecida com sabonete. Ficou decidido que o caso era com o rabecão.

A última boca repetiu — Ele morreu, ele morreu. A gente começou a se dispersar. Dario levara duas horas para morrer, ninguém acreditou que estivesse no fim. Agora, aos que podiam vê-lo, tinha todo o ar de um defunto.

Um senhor piedoso despiu o paletó de Dario para lhe sustentar a cabeça. Cruzou as suas mãos no peito. Não pôde fechar os olhos nem a boca, onde a espuma tinha desaparecido. Apenas um homem morto e a multidão se espalhou, as mesas do café ficaram vazias. Na janela alguns moradores com almofadas para descansar os cotovelos.

Um menino de cor e descalço veio com uma vela, que acendeu ao lado do cadáver. Parecia morto há muitos anos, quase o retrato de um morto desbotado pela chuva.

Fecharam-se uma a uma as janelas e, três horas depois, lá estava Dario à espera do rabecão. A cabeça agora na pedra, sem o paletó, e o dedo sem a aliança. A vela tinha queimado até a metade e apagou-se às primeiras gotas da chuva, que voltava a cair.


Extraído de: "Vinte Contos Menores", Editora Record – Rio de Janeiro, 1979, pág. 20.

22 de maio de 2012

Dalton Trevisan conquista Prêmio Camões de Literatura

E mais um prêmio nosso vampiro conquista.. dessa vez um dos maiores da literatura: Camões.
Se foi buscar? Não, não apareceu. Se isso importa? Não, não importa.
O que importa mesmo é que a genialidade e a importância do maior escritor paranaense foi novamente reconhecida e recompensada.
Vida longa ao vampiro, à sua humanidade, à sua genialidade. Que ele nos sugue por completo.. e jorre esse sangue nos brancos papéis, borrando a literatura com as suas, tão nossas, histórias.