26 de maio de 2011

Aí pelas três da tarde - Raduan Nassar

Nesta sala atulhada de mesas, máquinas a papéis, onde invejáveis escreventes dividiram entre si o bom senso do mundo, aplicando-se em idéias claras apesar do ruído e do mormaço, seguros ao se pronunciarem sobre problemas que afligem o homem moderno (espécie da qual você, milenarmente cansado, talvez se sinta um tanto excluído), largue tudo de repente sob os olhares à sua volta, componha uma cara de louco quieto e perigoso, faça os gestos mais calmos quanto os tais escribas mais severos, dê um largo "ciao" ao trabalho do dia, assim como quem se despede da vida, e surpreenda pouco mais tarde, com sua presença em hora tão insólita, os que estiverem em casa ocupados na limpeza dos armários, que você não sabia antes como era conduzida. Convém não responder aos olhares interrogativos, deixando crescer, por instantes, a intensa expectativa que se instala. Mas não exagere na medida e suba sem demora ao quarto, libertando aí os pés das meias e dos sapatos, tirando a roupa do corpo como se retirasse a importância das coisas, pondo-se enfim em vestes mínimas, quem sabe até em pêlo, mas sem ferir o pudor (o seu pudor, bem entendido), e aceitando ao mesmo tempo, como boa verdade provisória, toda mudança de comportamento. Feito um banhista incerto, assome depois com sua nudez no trampolim do patamar e avance dois passos como se fosse beirar um salto, silenciando de vez, embaixo, o surto abafado dos comentários. Nada de grandes lances. Desça, sem pressa, degrau por degrau, sendo tolerante com o espanto (coitados!) dos pobres familiares, que cobrem a boca com a mão enquanto se comprimem ao pé da escada. Passe por eles calado, circule pela casa toda como se andasse numa praia deserta (mas sempre com a mesma cara de louco ainda não precipitado), e se achegue depois, com cuidado e ternura, junto à rede languidamente envergada entre plantas lá no terraço. Largue-se nela como quem se larga na vida, e vá fundo nesse mergulho: cerre as abas da rede sobre os olhos e, com um impulso do pé (já não importa em que apoio), goze a fantasia de se sentir embalado pelo mundo.


Conto extraído do livro Menina a caminho.

24 de maio de 2011

O amor acaba - PAULO MENDES CAMPOS

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.

Texto extraído do livro "O amor acaba", Editora Civilização Brasileira – Rio de Janeiro, 1999, pág. 21, organização e apresentação de Flávio Pinheiro.

18 de maio de 2011

Paiol Literário: JOÃO UBALDO RIBEIRO



Na última sexta-feira, dia 13, teve início no Teatro Paiol a sexta edição do projeto Paiol Literário.  Contando com a presença de escritores dos mais diversos tipos, o projeto já entrevistou mais de 43 escritores.
O baiano João Ubaldo Ribeiro foi o autor escolhido para inaugurar a nova edição.
Casa cheia, fãs, admiradores e leitores assíduos de sua obra. O espetáculo não podia ser melhor. As oito horas em ponto, surge João Ubaldo e acomoda-se numa poltrona confortável, coloca seu casaco de lã sobre a perna e abre um sorriso calmo. Suas primeiras palavras foram: boa noite. Ditas com uma voz grossa, à primeira vista, até assustadora.
É necessário que se abra um parêntese nesse momento: como leitora de suas crônicas, amante de seus livros e discreta fã, esperava encontrar naquela noite fria, um escritor como os outros, pelo menos ‘semelhante’. Sabe do que falo? Aqueles escritores cuja inspiração é quase divina. Aqueles escritores que têm a literatura como fuga, refúgio. Todo esse lirismo que, definitivamente, só existia na minha cabeça tola. Continuemos...
Entre perguntas sobre a importância da literatura e sua carreira de escritor, João Ubaldo se mostrava um homem com um senso de humor incomum, e com uma visão muito clara e crítica de tudo. Para ele, a literatura não deve ser vista como uma utilidade, pois é uma arte, e a arte não é uma utilidade. A literatura é uma importante forma de conhecimento e de maturação da língua.
Escritor consagrado e membro da Academia Brasileira de Letras, João Ubaldo Ribeiro alia simplicidade com uma escrita refinada, corretíssima e cuidadosa. Como leitora, percebo que ele cuida da língua portuguesa, escreve para ela. Parece-me também, que sua inteligência transcende a própria literatura e não cabe dentro dele. O homem emana inteligência, histórias e simplicidade.
Sobre seu início na literatura, contou que sua casa era uma biblioteca. Livros espalhados por todos os cômodos, sala, cozinha e até no banheiro. Desde cedo os livros o atraíram. Primeiramente, pelas gravuras e depois pelas histórias em si. Seu pai, também amante dos livros, não admitia que um filho com seis anos de idade não soubesse ler. Por isso, sempre lera de tudo, mesmo não entendendo absolutamente nada. Leu Hamlet, Dom Quixote e Monteiro Lobato.
O escritor arrancou risos da platéia ao dizer que é difícil aliar o trabalho de escritor com qualquer coisa. Pois escrever requer concentração, prática. Quando o autor entra no universo ficcional que criou, fica muito difícil sair de dentro dele. Hoje em dia, adota a técnica de alguns outros escritores, escrevendo tantas palavras por dia. Sua média de palavras fica em torno de 800. O melhor horário para essa produção é de manhã, quando acorda.
E, acredite se quiser, João Ubaldo disse ter a impressão de que ninguém o lê.
Quando questionado sobre o seu trabalho de escritor, disse que, quando está escrevendo, não pensa em nada. Sua única preocupação é ser claro, legível.
Auto-desprezo. Foi com essa palavra que o escritor definiu o povo brasileiro. Nosso povo tem intimidade com as histórias estrangeiras, escritores estrangeiros, mas brasileiros não. E isso, para ele, é não ter respeito por si próprio. Queremos ser americanos, queremos glamour! E essa ignorância é que contribui para o empobrecimento da língua. Seu pessimismo perante a humanidade é tamanho, que chega dizer que sempre fazemos as mesmas coisas, desde o tempo das cavernas. Por isso, no Brasil é tudo mais tardio, mais atrasado. João Ubaldo Ribeiro não tem fé na humanidade. Para ele, somos uma nação de analfabetos funcionais.
Além de escritor e tradutor, João Ubaldo é professor. Sobre isso, diz ter que fazer adaptações nas suas expectativas e tremendos esforços para poder aprovar algum aluno. A juventude perdeu sua voz, preserva-se a falta de fala.
Os jovens não lêem porque tem medo da leitura. Nas escolas, em vez de ensinar a ler, os professores ensinam a ter medo de ler. Os alunos lêem sob a tensão a de responder questões e escrever resumos após a leitura. Para João Ubaldo, o grande obstáculo na leitura dos clássicos da literatura, é justamente a apresentação desses clássicos como clássicos, difíceis, subjetivos. Ler é chato, dá trabalho. Mas as pessoas não vêem que a literatura é muito mais que isso, que o livro só fornece palavras, é o leitor quem age sobre ele. E essa é a grande beleza da literatura.
Alguns de seus livros foram adotados para vestibulares e, ao ler as questões sobre as obras, ele próprio não conseguiu responder...
Sobre as adaptações cinematográficas de algumas de suas obras, João Ubaldo disse que aceitou o convite apenas porque era feito por amigos. Nada do que está na tela é dele, não reconhece sua obra no filme.
Mesmo sendo um escritor consagrado, premiado e sim, muito lido, João Ubaldo afirma não ter uma intenção messiânica com sua literatura. Mas, afirma que, se as pessoas lessem mais, teríamos um país de gente mais sensível, de visão mais ampla, de mente aberta. Mas, não há uma motivação para que isso aconteça. Ninguém ganha prêmio por ler! Que ironia...
O encontro com João Ubaldo Ribeiro acabou entre aplausos e súplicas de quero mais. O que vi e ouvi, me fez repensar a maneira como vejo a literatura e o escritor em si. Foi como se João Ubaldo tivesse dito no meu ouvido: “Ana Paula, somos normais, como você.” E o mais bonito nisso tudo, foi a sensação de que sim, a literatura é a pura realidade (se é que existe uma) e que o escritor é tão real quanto suas palavras.
João Ubaldo Ribeiro é tão pungente, impressionante, tão visceral, que, voltando para casa após o encontro, não conseguia parar de pensar em suas palavras, no seu humor, ironia e naquela paciência tão típica dos baianos.
É um escritor, mas acima de tudo, um ser humano normal, simples na sua realeza. Um senhor, com seu casaco de lã sempre a postos, uma audição já não tão jovem quanto seu humor, e pés gelados sem meias, dentro de um sapato marrom claro. Lúcido, lúcido. Uma visão lúcida do mundo, da sua escrita, de si próprio. Uma lucidez encantadora.
Se tivéssemos a oportunidade de conhecer cada escritor que admiramos, certamente alguns conceitos e tabus seriam quebrados. Mas o amor pela literatura e pelas histórias é imutável.

“Os livros eram uma brincadeira como outra qualquer, embora certamente a melhor de todas. Quando tenho saudades da infância, as saudades são daquele universo que nunca volta, dos meus olhos de criança vendo tanto que entonteciam, dos cheiros dos livros velhos, da navegação infinita pela palavra, de meu pai, de meus avós, do velho casarão mágico de Aracaju.” (João Ubaldo Ribeiro in Memória de Livros, crônica extraída do livro Um brasileiro em Berlim)