27 de agosto de 2013

TREINANDO PARA O VESTIBULAR - Proposta de Redação 1

Aos alunos que, eventualmente, desejarem propostas extras de redação sobre os temas que percorrem a mídia semanalmente, postarei algumas aqui.

A proposta que segue diz respeito à legalização da maconha, a partir de sua regularização no Uruguai a duas semanas.

Texto I


A resposta da Califórnia - Mário Vargas Llosa
Publicado em: Estadão, 07 de novembro de 2010.

[...] Esta solução passa pela descriminalização das drogas, ideia que há pouco tempo era inaceitável para a maior parte de uma opinião pública convencida de que a repressão policial aos produtores, vendedores e usuários de entorpecentes seria o único meio legítimo de pôr fim a semelhante praga.
[...] Os milhões de eleitores californianos que votaram a favor da legalização da maconha são um indício auspicioso de que cada vez é maior o número daqueles que pensam que chegou a hora de uma mudança na política para lidar com as drogas e de uma reorientação dos esforços - de repressão e prevenção, de cura e informação - no sentido de acabar com a criminalidade desaforada que é criada pela proibição e com os estragos que os cartéis estão infligindo às instituições democráticas, principalmente nos países do terceiro mundo. [...] 
A legalização das drogas não será fácil, é claro, e num primeiro momento, como assinalam seus detratores, trará sem dúvida um aumento no seu consumo. Por isso, a descriminalização só tem razão de ser se for acompanhada de intensas campanhas de informação sobre os prejuízos que esse consumo implica[...]
Mas seu efeito mais positivo e imediato será a eliminação da criminalidade que prospera exclusivamente graças à proibição. [...] Como o problema da droga é fundamentalmente econômico, sua solução também precisa passar pela chave econômica.
[...] a legalização trará aos Estados grandes recursos que, se forem empregados na educação dos jovens e na informação do público em geral a respeito dos efeitos nocivos que o consumo dos entorpecentes causa na saúde, podem trazer um resultado infinitamente mais benéfico e de alcance mais amplo do que uma política repressiva [...]
[...] seus adversários respondem com um argumento moral. "Será que devemos nos render ao delito em todos os casos nos quais a polícia se mostre incapaz de deter o delinquente, optando, assim, por legitimá-lo?  Não se deve confundir as coisas. Um Estado de direito não pode legitimar os crimes e os delitos sem negar a si mesmo e converter-se num Estado bárbaro. E um Estado tem a obrigação de informar seus cidadãos a respeito dos riscos que estes correm ao fumar, beber álcool e usar drogas, é claro. [...] Mas não me parece muito lógico nem coerente que, sendo esta a política seguida por todos os governos em relação ao tabaco e ao álcool, não seja esta a política seguida também para o caso das drogas [...].
Liberdade. Por isso, não vejo por que o Estado teria de proibir uma pessoa adulta e dona do próprio juízo de causar mal a si mesma ao fumar maconha, cheirar cocaína ou encher-se de pastilhas de ecstasy se isto lhe agrada, alivia sua frustração ou sua apatia. [...] É perigosíssimo que o Estado comece a definir aquilo que é bom e saudável e aquilo que é ruim e prejudicial, pois tais decisões representam uma intromissão na liberdade individual, princípio fundamental de uma sociedade democrática.
Por este rumo podemos chegar sem perceber ao desaparecimento da soberania individual e a uma forma disfarçada de ditadura. E as ditaduras, como sabemos, são para os cidadãos infinitamente mais mortíferas do que os piores entorpecentes.


Texto II


Publicado em: Zero Hora, 31/07/2013.



Texto III





Publicado em: Zero Hora, 08/09/12


A legalização no Uruguai - Informações

•Venda da droga em farmácias: 400 gramas por usuário por mês;
•Registro, maioridade e residência no país;
•Cultivo: até seis pés;
•Criação de órgão para fiscalização e controle da produção;
•Planos de prevenção ao consumo;
•Proibição de propagandas e venda a menores de 18 anos.

Campanhas de prevenção às drogas - Brasil




Filmes sobre a maconha - contextualização


Super High Me, 2007

Nome original: Super High Me
Diretor: Michael Blieden

         Sinopse: Através de um formato documental, Super High Me faz uma sátira/cópia de Super Size Me. Contudo, vemos o comediante americano Doug Benson utilizar como pesquisa principal a maconha e não os fast-foods. Ele passa 30 dias sem consumir cannabis e, posteriormente, 30 dias consumindo a erva. O documentário apresenta todos os exames médicos sem e com a influência da maconha. Apesar dos quilinhos a mais, o resultado final é surpreende.


       Um documentário expressivo e divertido sobre a história da maconha nos Estados Unidos no século 20. Do diretor canadense Ron Mann, é um documentário instigante e polêmico, inédito no Brasil, que foi aclamado nos países onde pôde ser apresentado. Com uma linguagem moderna, o filme conta a história secreta da proibição da maconha, mostrando os interesses políticos e econômicos por trás dela. Maconha se baseou numa imensa pesquisa histórica e traz imagens surpreendentes de antigas campanhas publicitárias anti-drogas. Foi eleito como o melhor documentário de 2000 pela Academia Canadense de Cinema e TV.



A União – O Comércio Por Trás do “Ficar Chapado”

       O comércio ilegal da maconha se transformou em um grande negócio, que movimenta $7 bilhões de dólares anualmente apenas no Canadá. Embora o documentário aborde de forma sucinta os princípios e políticas passadas que classificaram a maconha como "uma droga poderosa e perigosa", apresenta uma pergunta bastante válida. Por quê? O documentário mostra como os cultivos caseiros se transformaram num negócio multibilionário. Mesmo assim, a sociedade recusa a aceitar seus benefícios naturais e continua a gastar milhões para processar e prender aqueles que a cultivam, vendem ou fumam. O documentário entrevista historiadores, escritores, estudiosos, policiais, representantes do governo, cultivadores e celebridades (Tommy Chong, Joe Rogan) dos EUA e Canadá, analisando a causa e efeito da natureza do negócio - uma indústria que pode lucrar mais se permanecer ilegal.

Quebrando o tabu - 2011

        Quebrando o Tabu escuta vozes das realidades mais diversas em busca de soluções, princípios e conclusões. Bill Clinton, Jimmy Carter e ex-chefes de Estado, como Colômbia, México e Suíça, revelam como mudaram de opinião sobre um assunto que precisa ser discutido e esclarecido. Do aprendizado de pessoas comuns, que tiveram suas vidas marcadas pela Guerra às Drogas, até experiências de Dráuzio Varella, Paulo Coelho e Gael Garcia Bernal, Quebrando o Tabu é um convite a discutir o problema com todas as famílias.


Pontos e contrapontos para reflexão

Uso medicinal x Distúrbios psíquicos
Gastos com a repressão x Gastos com testes, tentativas
Rebeldia e transgressão do jovem x Maior consumo
Crime organizado x Mercado negro
Redirecionamento dos esforços policiais 
População penitenciária e ressocialização
Campanhas publicitárias adequadas
Mercado secundários
Oferecimento de outras drogas x “Porta de entrada”
Fracasso da repressão nos EUA x Fracasso da descriminalização


PRODUÇÃO DE TEXTO

A partir da leitura dos textos apresentados, produza um texto dissertativo-argumentativo posicionando-se a favor ou contra a legalização da maconha no Brasil. Seu texto deve:
* Apresentar dados concretos para embasar seu argumento;
* Trazer um exemplo de local no qual a descriminalização foi benéfica ou a política de repressão foi maléfica;

* Se FAVORÁVEL, seu texto deve:
Apresentar dois motivos que tornam o Brasil “capaz” de legalizar a droga.

* Se CONTRÁRIO, seu texto deve:
Apresentar dois motivos que tornam o Brasil “incapaz” de legalizar a droga.

Faça de 12 a 15 linhas ou até 30 linhas (ENEM).





9 de agosto de 2013

Democratizar a democracia

Roberto DaMatta - importante antropólogo brasileiro - entende o futebol como o esporte responsável por ensinar a nós, brasileiros, a democracia. Palavra essa, aliás, que, de tão manjada, já perdeu seu real sentido em meio a significados e contextos diversos, muitas vezes meramente elucidativos. No Brasil, por exemplo, é senso comum entender a democracia como a tomada de decisões pelo povo. Porém, mais senso comum ainda é compreender que a democracia aqui não funciona plenamente.

É claro que não desmontarei a máquina democrática da política brasileira a fim de mostrar-lhe, caro leitor, quais as engrenagens que, vez em quando, emperram. Isso seria subestimar a sua inteligência e poderia despertar o Gigante (se é que me entende). Aliás, já que tocamos no assunto subestimar o povo, me permita lhe informar que o governo, mais uma vez, "tirou uma com a nossa cara", como diriam meus alunos. Refiro-me à caxirola, o instrumento criado por Carlinhos Brown (cujo nome, aliás, me soa muito patriota) que se tornaria símbolo das torcidas da Copa do Mundo 2014 no Brasil (tchitchitchitchi). Percebeu o verbo no pretérito? Pois é. A criação, melhor, a adaptação de Carlinhos Brown foi testada em um jogo entre Bahia e Vitória e, para surpresa de seus entusiastas, foi utilizada como arma de protesto pelos torcedores do time perdedor (tchitchitchitchi), que arremessaram os instrumentos ao campo. Abaixo, portanto, à caxirola.

Um detalhe importante da caxirola é seu preço. Sim, preço. Peço desculpas, leitor, pois não expliquei-lhe antes que, no jogo-teste os instrumentos foram dados aos torcedores, mas a intenção, claro, é que sejam comercializados, custando em torno de 30 reais (tchitchitchitchi). Sabendo disso, é evidente que a adaptação do caxixi para a caxirola não poderia ser mais trágica (tchitchitchitchi)! E a tragédia está não no ocorrido no jogo de estreia do instrumento, mas na forma como foi imposto que esse seria o símbolo de torcidas que, por si só, já simbolizam o futebol que nos faz conhecidos no mundo todo, feito de caras e urros! A democracia da qual fala DaMatta existe, de fato, no futebol. Ela inexiste, porém, nos palácios e senados onde projetos como o da caxirola são aprovados (tchitchitchitchi). Exerçamos, portanto, a nossa democracia! E que os campos de futebol, as calçadas do Senado, as praças e as avenidas se cubram de caxirolas, cartazes e pessoas na luta pela utópica democracia.

8 de agosto de 2013

Aço em flor

CENÁRIO: panos pretos; páginas rasgadas ao chão; garrafas e copos quebrados ao chão; um banco de madeira grande, de três lugares no centro do palco; painel branco atrás do palco com poemas de PL em preto e manchas em vermelho. Ao fundo, melodia da canção "Cheiro de uma flor".
Homem nu, com sandálias franciscanas, sentado no meio do banco. Em seu corpo, palavras escritas em preto e gotas de tinta vermelha, sangue.



os bigodes trêmulos
o bafo de vodka
o olhar de cachorro que caiu da mudança
em abandono
em cólera
em transe
as palavras sussurradas, inaudíveis aos jornalistas burocratas empresários ternos e gravatas batom no colarinho que falavam falavam falavam compondo uma melodia desconexa e sem ritmo que só jornalistas burocratas empresários ternos e gravatas batom no colarinho suportariam
passos lerdos, arrastados
a vida que pulsara naquele corpo, que alimentara sua genialinsanidademental parecia pisoteada pelos passos lerdos, pesados, tamanho 43
rua
curitibanos
asiáticos
cheiros
pastel
perfume
mijo
barulho
motores
martelos
risos



sua cidade, sua alma
apagava-se
diluia-se
a cachaça lhe corroera os ossos, tudo bem!
tirara-lhe esposa e filhos, tudo bem!
sobrevive, diluído, mas sobrevive
a cachaça - essa merda de realidade
essa merda de cidade
essa merda de poesia!
amada seja a poesia!
cadê? diluída em copos e relaxos.
cadê?
amada seja a poesia!
manchas
memórias
lembranças turvas
manchas
amada seja a poesia!
cadê?
flores
poesia
flores
agora aço - pedra - aço
a poesia era sua liberdade! amada seja! cadê?
?
aço no pulso
aço no pulso
pulsação - poesia - pulsaç - poesia - pul - poesia - p - poesia - p - poesia - p - poesia.
a noite, enorme
poesia.
ele dorme.

18 de junho de 2013

Sobre as manifestações


Na última segunda-feira (17) as ruas de Curitiba foram tomadas por milhares de pessoas em apoio aos manifestos do Movimento Passe Livre em São Paulo. A cena que presenciei ao me deparar com todo aquele povo, era linda. Cartazes, bandeiras e um grito preso na garganta era o que mantinha os manifestantes unidos.
Em meio a toda a discussão que, inevitavelmente, se formou em torno desses movimentos que se alastraram pelo Brasil, dois pontos chamaram minha atenção. O primeiro diz respeito ao caráter indiscutivelmente diferenciado desses novos manifestos. Diferente do que até então era costumeiro, esses manifestos têm como principal marca a pacificidade. Em São Paulo, por exemplo, onde tudo começou, desde o primeiro manifesto as pessoas foram às ruas portando flores, vestindo branco e suplicando PAZ. A polícia, em contrapartida, por despreparo, recebeu os manifestantes com inegável truculência. O despreparo policial tem como origem, acredito, justamente no diferencial desses movimentos, que não têm um centro, um sindicato ou alguém com que negociar, e sim, milhares de pessoas que, juntas, formam um único núcleo que pede, exige resposta. A polícia, assim, é impotente diante os crimes cometidos diariamente por uma população carente, oprimida e cada dia mais violenta, mas é forte (no sentido literal da palavra) para repreender arbitrariamente e ditatorialmente àqueles que, em protesto, lutam por dias melhores.
No meio da multidão, óbvio, pequenos grupos cometem atrocidades que difamam e mancham o branco das manifestações. Mas como julgá-los? Como dizer, com todas as letras, que essas pessoas estão erradas em destruir o patrimônio público, tão privado? A impressão que tenho, ao tentar responder essas perguntas, é que acabarei me repetindo e entrando num exercício retórico inválido e pouco eficiente, pois creio ser muito difícil mudar a mentalidade de um cidadão que, cansado dos pequenos delitos diários que sofre do governo, queira destruir o que ele mesmo mantém, com o suor do seu trabalho. Por isso, e espero que isso não comprometa a validade desse texto, não me aterei aos vandalismos. O fato é que, em meio aos muitos manifestantes que lutam em paz, existem os que lutam vandalizando. E isso não significa que o manifesto seja uma baderna.
O segundo, e último ponto (por enquanto), que me chamou a atenção, foi em relação às demandas dos manifestantes. Li muitas opiniões de pessoas que julgam necessário um foco, uma demanda mais clara nos manifestos que se espalharam pelas capitais. Temos uma demanda clara: a diminuição na tarifa do transporte público! Parece-me mais claro ainda que, por trás dessa demanda, muitas outras questões estejam implícitas. Afinal de contas, se a tarifa aumenta, pressupõe-se que a qualidade no transporte também melhore, assim como aumente a frota de ônibus, os salários dos trabalhadores, deem-se condições mínimas de trabalho àqueles que ficam em estações tubos e diminuam-se as goteiras em terminais e tubos (falando exclusivamente de Curitiba). O problema é que os preços sobem e a qualidade não. Em Curitiba, alguns dos novos biarticulados exibem um bonitinho telão próximo à porta 1, que exibe notícias e propagandas de empresas curitibanas. Além disso, alguns terminais já contam com um letreiro informando horários de algumas linhas de ônibus, o que facilita muito a vida de qualquer passageiro, desde que os motoristas conseguissem cumprir aqueles horários, ou que os biarticulados mais antigos não deixassem se funcionar no meio do trajeto. Portanto, sem mais rodeios, a demanda de diminuição na passagem é clara e não é e nem pode ser única!
Algumas pessoas me disseram que foi só mexer no bolso, na “migalhinha” de cada um, que o povo resolveu lutar. Não vejo por esse lado e acho, na verdade, que é uma visão simplista e acomodada. Se fosse apenas isso, porque tantas pessoas, em meio à multidão, pedem por promessas não cumpridas e reivindicam melhorias em outros setores? Na manifestação vi cartazes referindo-se à tarifa, vi outros reclamando a corrupção, alguns descendo o sarrafo nas grandes mídias, e outros, ainda, cobrando ação, grito e luta do povo. E isso não significa, não mesmo, que o movimento tenha perdido sua demanda principal, tenha desvirtuado seu principal objetivo. Isso porque o aumento da tarifa é, na verdade, advindo de tantos outros insultos que corrompem a democracia e ferem nosso patriotismo, pois um problema, a meu ver, é cíclico e se origina de outros problemas. É muito claro o que a população exige: voz ativa - além das urnas - nos processos políticos do país e DIGNIDADE. Então, por favor, manifestantes, cobrem, gritem e reclamem seus direitos! Reclamem suas migalhinhas!
É inevitável, também, a pergunta: no que isso vai dar? E a resposta também me parece óbvia: não sabemos. O que importa, acredito, é dar o recado, manter a postura ao ir às ruas e não deixar o caráter pacífico das manifestações se perder em meio ao despreparo policial e às opiniões contrárias que tendem a difamar os manifestos. O que estamos fazendo é muito bonito, válido e necessário! Continuemos, então, nesse processo democrático em que ir às ruas me parece ser uma forma de (re)descobrir o Brasil e revelar o brasileiro, tal qual ele é, um povo heroico, livre e politicamente ativo.

26 de março de 2013

No corpo - Ferreira Gullar

De que vale tentar reconstruir com palavras
O que o verão levou
Entre nuvens e risos
Junto com o jornal velho pelos ares

O sonho na boca, o incêndio na cama,
o apelo da noite
Agora são apenas esta
contração (este clarão)

do maxilar dentro do rosto.

A poesia é o presente.

28 de fevereiro de 2013

Laura - Fabrício Carpinejar

Ilustra de Eduardo Nasi
 
Eu e meu marido saímos cedo de casa. Ele acorda antes de mim. Nem o vejo: pressiona seus lábios em minha cabeça e parte para o curtume.

Às vezes exala de sua boca o aroma de café com leite. Eu gosto de ser beijada dormindo. A testa é a última porção do rosto que lavo na hora de acordar — preservo sua benção.
 
Não nos falamos durante o dia. Começo o expediente às 8h na fábrica de costura. O intervalo de almoço é de 45 minutos. Nossa vida é baixar o queixo e se concentrar em panos e couros.
 
Mário ainda trabalha longe, em outra cidade, chega em nossa residência depois da meia-noite. Preparo comidinha e guardo nas panelas. Nunca janto com ele.
 
Ele pressiona seus lábios em minha cabeça e dorme. Aprendeu a tirar a roupa sem me acordar. Imagino que seus sapatos são silenciosos; as mangas, esvoaçantes; os casacos, de pluma.
 
Sua nudez não pesa mais no colchão. Ele treinou desaparecer de mim.
 
É um homem que cuida de meu sono, já que não pode cuidar de minhas palavras.
 
Experimentamos a solidão do casamento. Aperto o forro dos bolsos para fingir sua mão na minha mão. Sua mão pesa igual à gaveta da cozinha.
 
Quando cruzamos um olhar no corredor, é uma janela. Ele não amaldiçoa o cansaço, o salário, a falta de esperança. Agradecemos a saúde para continuar.
 
Eu me habituei com o raso, é só pôr mais água no feijão.
 
Somos acostumados. Juntamos nossas economias para pagar a casinha. Há mês que sobra, arrumamos até um armário novo para o quarto, com prateleira para botar cobertas e lençóis. Pela primeira vez, tiramos as caixas de papelão debaixo da cama.
 
Meu homem é do mundo. Eu sou do mundo. Segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado sem ele. Sem trocar impressões ou pedir ajuda ou chorar. Sou quase uma viúva. Ele é quase um viúvo.
 
Mas jamais reclamo porque tenho meu domingo.
 
No domingo, nos acordamos no mesmo instante. E eu dou um beijo em sua testa.
 
Preparamos o mate e sentamos na varanda.
 
Ele me fala o que fez, o que pretende fazer, o que nunca fará.
 
O vento sopra em nossas oliveiras e ele pergunta se estou com frio.
 
Naquele momento, ele é meu homem, somente meu, de mais ninguém.
 
Quando ele é meu, eu também me pertenço.
 
São seis horas por semana em que não preciso dividi-lo. Cheiro suas golas, deito em seus ombros e penteio seus cabelos com as unhas.
 
Parece pouco, mas é toda a minha vida, por isso despertarei o resto dos meus minutos. Duvido que alguém seja mais feliz.
 
 
Texto publicado em: Vida Breve

14 de fevereiro de 2013

Neruda, um velho e latente amor...


Há outros dias que não têm chegado ainda,
que estão fazendo-se
como o pão ou as cadeiras ou o produto
das farmácias ou das oficinas
- há fábricas de dias que virão -
existem artesãos da alma
que levantam e pesam e preparam
certos dias amargos ou preciosos
que de repente chegam à porta
para premiar-nos
com uma laranja
ou assassinar-nos de imediato.

Esperemos - Neruda in Últimos Poemas

16 de janeiro de 2013

Os territórios nada estreitos da nova literatura chilena



Os territórios nada estreitos da nova literatura chilena


Matéria publicada em: 


Não foi apenas a fuligem do vulcão Copahue que cruzou os Andes recentemente. Em 2012, os (bons) ventos da nova literatura chilena também sopraram por aqui, mostrando que a produção atual do país voltou a entrar em erupção. Enquanto cânones e best-sellers continuam aportando em solo nacional – não faltam nas livrarias obras de Pablo Neruda, Isabel Allende, António Skármeta e do “fenômeno cult” Roberto Bolaño –, os leitores brasileiros descobriram no ano passado dois narradores já consagrados por lá: Hernán Rivera Letelier, ganhador do prêmio Alfaguara de romance em 2010, e Alejandro Zambra, convidado da 10.ª Festa Literária de Paraty.

“O Chile é, sem dúvidas, um país com uma literatura variada, sólida, instigante e vigorosa. Pena que ainda nos falte conhecer muitos de seus autores, da mesma forma que eles também conhecem pouco da nossa literatura. É como se os Andes fossem uma barreira”, lamenta o tradutor Eric Nepomuceno, que verteu ao português A Contadora de Filmes, décimo terceiro romance de Letelier. Antes de conquistar o tradutor, porém, a obra já havia encantado o cineasta Walter Salles, que assina a orelha do livro e, segundo rumores, planeja adaptá-lo à telona.


Com uma obra marcada pela paisagem árida do Atacama, personagens fabulosos, uma narrativa algo épica e envolvente, Letelier é tido como o herdeiro direto da tradição fantástica no Chile, cujo nome mais emblemático foi José Denoso, autor de O Obsceno Pássaro da Noite. Bem diferente de seu conterrâneo Alejandro Zambra, que, pelo viés do minimalismo, opta por histórias íntimas de personagens urbanos, mirando nas relações amorosas e confrontando a nostalgia do passado com a melancolia do presente. A curtíssima novela Bonsai é um belo exemplo, assim como o romance La Vida Privada de los Árboles, que a editora Cosac Naify lançará aqui em abril deste ano.


Enterrando estereótipos


Quando o escritor santiaguino Alberto Fuguet mandava seus originais para editoras norte-americanas, nos anos 1980, não raro recebia respostas do tipo: “Coloque em seus textos algo folclórico, coisas exóticas, e depois volte a nos procurar”. Para fazer frente ao estereótipo que se tinha das letras latinas, Fuguet lançou em 1996 uma provocadora antologia de jovens contistas. O título: McOndo, Fusão de Mc Donald’s, Macintosh e Macondo, a mítica cidade de Cem Anos de Solidão. O objetivo era romper com o conceito de cultura autóctone e do realismo mágico como paradigma literário do continente.


“Sempre desconfiei dos nacionalismos, eles têm uma vocação fascista”, diz Lina Meruane, chilena radicada em Nova York e ainda inédita no Brasil – à exceção de um conto publicado pela editora curitibana Arte e Letra na edição R da revista Estórias. Apesar de reticente à ideia de nação, Lina se interessa pelas variações da língua espanhola e de cada cultura, pois seriam modos de viabilizar o particular e combater a homogeneidade. “As formas como o imaginário desta nova geração se abre são muito diferentes. Tendo a pensar que o único ponto de encontro é um voltar-se constante a certos códigos locais, ao regionalismo da própria língua”, opina.


Para o crítico Javier Edwards Renard, editor da revista online Ojo Literário, escritores e leitores são permanentemente bombardeados por fragmentos de um mundo “googlelizado”. “Diferente do que ocorreu entre 1950 e 1970, a nova prosa e poesia do Chile têm em comum a legitimação de um olhar eclético no qual, tanto na forma quanto no conteúdo, tudo cabe: temas de gênero, conflitos sociais, história política recente, o extravagante e o convencional. E isso faz com que estejamos em um momento ao mesmo tempo confuso e saudável”, explica.


Fronteiras narrativas


Existe algo no clima e na geografia extremos deste país que, marcado por montanhas e cicatrizes profundas em seu relevo, talvez torne o discurso chileno seco, direto e duro na prosa, mas com um enorme poder alegórico e simbólico no exercício da linguagem poética. (grifo meu) Nas manifestações literárias mais recentes, porém, há vozes poderosas nas quais a fronteira entre estes gêneros não é tão categórica”, afirma Renard. Para ele, os novos narradores começaram a perder certo pudor textual, explorando territórios narrativos mais arriscados, que antes pareciam ser patrimônio da poesia.


Entre os expoentes da novíssima geração está Diego Zuñiga, cujo romance de estreia, Camanchaca, acaba de ser reeditado pela Random House Mondadori e de ganhar tradução na Itália – além de elogios de Alejandro Zambra. Espécie de road-livro, Camanchaca narra a viagem de carro de um jovem obeso com seu pai, resvalando em questões familiares delicadas. O autor de 26 anos foi um dos convidados da Feira Internacional do Livro de Guadalajara de 2012, na qual o Chile foi o país homenageado. Durante o evento, Lina Meruane recebeu o prêmio Sor Juana Inés de la Cruz pelo romance Sangre en el Ojo, também considerado um dos melhores livros estrangeiros editados na Argentina em 2012, segundo a revista Ñ do jornal Clarín. Além dela, autoras como Andrea Jeftanovic, Nona Fernández e Alejandra Costamagna vêm ganhando espaço cada vez maior na cena literária chilena.


Mulheres


Javier Edwards Renard destaca a forte tradição de escritoras no país, antes e depois de Gabriela Mistral. “As mulheres chilenas conhecem o tecido da sociedade de um modo agudo e sensível, são aplicadas em sua prosa, sabem desafiar as formas sem piedade e leem mais do que os homens. Sinto que elas se apoderaram da palavra literária para derrotar séculos de silêncio e, hoje, narram os relatos antes restritos a uma dimensão mais doméstica e particular”, finaliza. (MS)

2 de janeiro de 2013

Receita de Ano Novo - Carlos Drummond de Andrade

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

11 de dezembro de 2012

o amor indo embora deixou o nervo à flor da pele
e como toda flor, a flor da pele é delicada
é preciso andar devagar
nosso amor é um menino dormindo
fogo e suave
eu vou puxar pra sempre um lençol de estrelas
ele vai te cobrir no frio
e quando você me ver cuidando de alguém
é pra que esse alguém não te machuque
vamos pro mundo que o mundo é a nossa casa
solta tua gargalhada e vamos seguindo juntos
olhando lá em cima, pra sempre, os sinais do cruzeiro do sul

(Oswaldo Montenegro)

23 de outubro de 2012

Facetas de Leminski

lembrem de mim
como de um
que ouvia a chuva
como quem assiste missa
como quem hesita, mestiça,
entre a pressa e a preguiça


























































































Imagens: 1 - Jornal Cândido; 2 - Seto; 3 - Marcos Guilherme; 4 - Osvalter; 5 - Paixão; 6 - César; 7 - Farol Multimídia; 8 - Amorim; 9 - Fraga; 10 - Zel Humor; 11 - Leminski



17 de outubro de 2012

O brilho da lâmpada,
no interior da morada,
empalidece as estrelas.


Helena Kolody

24 de setembro de 2012

Mas a Primavera nem sequer é uma cousa:
É uma maneira de dizer.
Nem mesmo as flores tornam, ou as folhas verdes.
Há novas flores, novas folhas verdes.
Há outros dias suaves.
Nada torna, nada se repete, porque tudo é real.

(Alberto Caeiro)

BEM VINDA PRIMAVERA!



11 de setembro de 2012

Tudo virou bullyng



Parafraseando Rita Lee, e para não ficar grosseiro, digo: tudo virou bullyng!
Bullyng é um termo americano que se refere às atitudes agressivas e preconceituosas, verbais ou não, cujo objetivo é ofender, menosprezar e agredir pessoas sem possibilidade de defesa.
Recentemente, saiu no jornal uma matéria sobre o possível preconceito nos significados da palavra cigano apresentados no dicionário Houaiss. A matéria, publicada na Folha de São Paulo, informa os termos considerados pela Procuradoria como preconceituosos: “aquele que faz barganha”, “esperto ao negociar”, “apegado ao dinheiro, agiota, sovina”.
Mas vamos ser honestos, porque esses significados estão no dicionário? Não seria porque alguém os atribuiu? Então não acredito que a solução – se é que existe uma solução – seja culpar o dicionário. A culpa é do povo, é minha, é sua, é nossa. O preconceito não está nos termos apresentados pelo dicionário, e sim na maneira como utilizamos esses termos e na história que originou esses significados.
Quando penso em ciganos, muitos significados e imagens surgem na minha mente. Primeiramente, penso na dança sensual, nos vestidos floridos e das flores vermelhas nos cabelos; penso na música ritmada e nas mãos ao alto, batendo palmas; penso no sapateado dos homens e nos dentes de ouro, que, em algum momento da história, tiveram um significado belo e vitorioso. Além disso, lembro da minha infância, onde me foi incutido o medo dos ciganos e suas leituras de mãos, fantasias e outras coisas do além ligadas à sua figura, desde os tempos mais remotos.
É claro que esse texto não tem a intenção de discorrer sobre história cigana, muito menos defender uma cultura da qual pouco conheço. Mas julgo necessário basear minhas considerações sobre esse caso na história desse povo, que, injustamente, sofreu e ainda sofre preconceito e discriminação por conta de seus hábitos e modo de viver.
O preconceito ao qual se refere a Procuradoria de MG, faz parte da história dos ciganos desde o começo dos anos 40, onde deu-se início às perseguições ao povo cigano pelos alemães. Castigados pelos costumes e hábitos que seguiam, as perseguições aos ciganos tornaram-se frequentes e disseminou-se pelo mundo o preconceito, o medo e a ignorância perante eles.
A origem desse preconceito está relacionada, possivelmente, com as profissões exercidas pelos ciganos, que são divididas, basicamente, em três: cantores e dançarinos (diversão), adivinhos e cartomantes (morte e fantasia) e ferreiros (sujeira, podridão). Em torno dessas profissões, lendas e mitos foram criadas, relacionando os ciganos com bruxaria, morte e outros termos como ladrão, enganador, vendedor de “muambas”, mentiroso, etc.
Atualmente, a população de origem cigana está presente em todo o mundo. Algumas tribos ainda mantêm os mesmos costumes, presentes no modo de vestir, falar, nas comemorações, e nos acampamentos, onde firmam morada por alguns meses, até partir para outro lugar. Outros ciganos vivem da leitura de mãos, cartas e também da venda de utensílios domésticos e acessórios. Ambos, porém, perderam traços característicos de sua cultura. E, em grande parte, isso ocorreu por conta do preconceito que sofreram e sofrem.
Depois desse esboço histórico, voltemos ao dicionário. E refaço a pergunta do início desse texto: porque esses significados estão no dicionário? Ora bolas, porque fazem parte do vocabulário do povo, são utilizados por nós quando nos referimos aos ciganos, e são, na maioria das vezes, fruto da ignorância e da falta de respeito diante do diferente, do estranho, do incomum.
Então meus caros, não culpemos o Houaiss, que não é dono do mundo, não dita regras e não rege pensamentos e muito menos ações humanas. É apenas um dicionário, que  cumpre seu papel de apresentar os diversos significados das palavras.
Sugiro, então, que paremos de procurar piolho em cabeça de prego, e foquemos no que realmente importa: o respeito e a aceitação do outro, do diferente. É como escreve Sírio Possenti sobre o caso: “Circulam estereótipos de corintianos, de argentinos, de ingleses, de portugueses. E de ciganos. Que podem ou devem ser combatidos, mas nas arenas adequadas. A censura a um dicionário certamente não é uma delas, dada a natureza da obra.”
Atualmente, vivemos uma fase onde tudo é considerado ofensivo e desrespeitoso, é tudo bullyng! E trabalha-se em cima disso; ao invés de conscientização com foco no respeito ao próximo e interesse pelas diferentes culturas, as escolas trabalham com exemplos medonhos do que consideram bullyng; as mídias investem em programas e matérias sensacionalistas sobre o assunto; os psicológicos e psiquiatras lucram com o trauma resultante do bullyng; as editoras lançam livros ensinando os pais a ensinarem seus filhos formas de se defender do bullyng; e as pessoas pensam mais antes de falar. E o governo? Ameaça proibir o uso de obras literárias de extrema importância nas escolas; proíbe o uso de livros didáticos que apresentam, além da norma culta, as diferentes variantes da língua; ameaça a integridade do dicionário, ferramenta de conhecimento e trabalho, que está simplesmente cumprindo seu papel de dicionário...!
E por ser mais frágil e facilmente resolúvel, e como a corda sempre arrebenta do lado mais fraco e - no caso - mais viável (e fácil), ainda leremos algumas bobagens do tipo: “O Ministério Público Federal recomendou às editoras que mudassem o verbete” (UOL) e, graças ao bom senso, leremos respostas do tipo "Fazê-lo seria varrer para debaixo do tapete o que nos envergonha, mas isso não serve de ação preventiva nem eliminadora do mal." (Instituto Antônio Houaiss). Então, fim de papo: o Houaiss permanece! Abaixo a censura, o preconceito e a ignorância!

http://jovempan.uol.com.br/noticias/brasil/2012/02/cigano-polemica-pode-afetar-dicionario-houaiss.html

http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/1054519-procuradoria-ve-preconceito-em-termo-usado-no-dicionario-houaiss.shtml

http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI5652820-EI8425,00-Limpar+livros+Nota+sobre+dicionarios.html